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O Estranho Assimilado. Processos cartográficos na Poética de Walmor Corrêa
Paula Ramos *
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“É preciso que haja,
nas coisas representadas, o murmúrio insistente da semelhança;
é preciso que haja, na representação, o recôndito sempre possível da
imaginação”.
Michel Foucault, em As Palavras e as Coisas (Foucault: 2002, 95) |
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É coisa sabida e pela
boca de todos corre que há certos demônios, a que os Brasis chamam
Corupira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes de
açoites, machucam-n’os e matam-n’os. São testemunhas disto os nossos
Irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso,
costumam os índios deixar de certo caminho, que por ásperas brenhas
vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha,
quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras
coisas semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando
fervorosamente aos Curupiras que não lhes façam mal.
(1) |
Assim escreveu o padre jesuíta José de Anchieta em sua décima carta acerca
do Brasil, datada de 31 de maio de 1560, dando, portanto, otestemunho de
verdade a um dos mais persistentes mitos brasileiros, o Curupira. Até
hoje, no Norte e Nordeste do Brasil, muitos populares afirmam sem hesitar
que já viram o ser bestial. Descrevem-no como um pequeno Tapuia, porém
muito ágil, com os pés voltados para trás, a cabeça pelada, às vezes com
um único olho, desprovido de sexo e sem os orifícios necessários às
secreções indispensáveis à vida. Ele é o senhor da caça, das matas,
protetor das florestas, cujos segredos conhece e defende. Couto de
Magalhães, em O Selvagem, publicado em 1876, assim escreveu:
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No
Pará, quando se viaja pelos rios e ouve-se alguma pancada longínqua
no meio dos bosques, os romeiros dizem que é Curupira que está
batendo nas sapipemas, a ver se as árvores estão suficientemente
fortes para sofrerem a ação de alguma tempestade que está próxima. A
função do Curupira é proteger as florestas. Todo aquele que derriba,
ou por qualquer modo estraga inutilmente as árvores, é punido por
ele com a pena de errar tempos imensos pelos bosques, sem poder
atinar com o caminho de casa, ou meio algum de chegar entre os seus.
(2) |
Curupira, ser fantástico,
quase sempre assustador e para muitos familiar. Ali está ele, em sua
estranheza perturbadora, estanque, morto. Deitado de forma inerte,
plácida, solto no espaço vazio, no espaço branco, gélido e branco, ele é
dissecado: a osteologia do crânio; a formação dos dentes; a rede nervosa
responsável pela arguta visão; o curioso aparelho urogenital. Seu corpo
está disponível aos olhares bisbilhoteiros e mesmo à observação mais
criteriosa. No mapeamento desse corpo, tal como um Atlas de Anatomia,
encontram-se informações detalhadas acerca do funcionamento dos mais
importantes ou peculiares órgãos. O texto relacionado aos ligamentos do
pé, por exemplo, indica:
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Podem-se observar na figura os ligamentos do pé direito, vista do
dorso lateral. O pé é uma estrutura bastante complicada, contendo 26
ossos (1/8 de todos os ossos do corpo humano), 33 juntas, 107
ligamentos, 19 músculos e tendões. Eles mantêm a estrutura como um
todo e o permitem mover-se de várias maneiras, ainda que, no caso do
Curupira, eles estejam voltados para trás – embora sustentem e
propulsionem o peso do corpo durante o andar e o correr.
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Seria sem dúvida prodigioso encarar o corpo do Curupira,
demorar-se em sua bizarrice, em suas singularidades; tocar e mesmo remexer
seus músculos agora frouxos, compreendendo, quem sabe, o funcionamento de
seu joelho e de suas articulações; abrir e fechar o seu solitário olho;
erguer a perna e comprovar a presença da coacla. Seria um capricho se não
fosse um delírio da imaginação, se não fosse uma grande e bem articulada
representação (3),
estruturada para surpreender o olhar, a percepção e as nossas certezas.
Programado para não Voar
O dissecador do Curupira é há tempos um proponente de
armadilhas visuais. Walmor Corrêa (4),
catarinense radicado em Porto Alegre, ganhou destaque nacional sobretudo a
partir de 2004, quando participou, com sala especial, da 26. Bienal
Internacional de São Paulo. Na ocasião, mostrou dezesseis pinturas da
série Catalogações, composta por dez representações de animais híbridos e
imaginários e outras seis de esqueletos de alguns desses mesmos seres;
trabalhos que ele chama de Apêndices. No corpo da pintura, textos
indicavam as características e singularidades das criaturas. Sobre o
Apterigiformes Aço II (mil e uma utilidades), um misto de ave com um tipo
de macaco ou mesmo preguiça, havia não somente dados de caráter físico e
evolutivo, como a seguinte descrição:
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É o
híbrido resultante de duas espécies quase extintas – o faisão
Lilliuns Artemísio, de carne tenra de coloração rosada e plumagem
cobiçada, com o Aço Trimegeoteis, longamente utilizado como amuleto
da fertilidade, poderoso afrodisíaco, tônico energizante, beberagem
depurativa, bálsamo revigorante, emplastro analgésico e quando
lambido exala um forte odor curativo. Suas propriedades já eram
apreciadas pelas legendárias tribos nômades das matas úmidas da Nova
Guiné. Devido à compatibilidade genética das duas espécies ocorreu o
fenômeno conhecido como “transmigração evolutiva cruzada” – o que
colaborou para a mesclagem das espécies e sua subseqüente
sobrevivência. |
O texto é, por si só, uma
galhofa. É lendo-o que o espectador ganha mais subsídios para adentrar no
universo de Walmor Corrêa, marcado substancialmente pela refinada técnica
em desenho; pelo contraponto lúdico entre Ciência e fantasia; e por uma
inusitada costura de sentidos entre imagens e escritos. Comentemos um
pouco essas características.
Quanto ao desenho: de fato, um observador diante de uma
obra do artista provavelmente vai se deixar envolver, de forma imediata,
pelo delicado e elegante grafismo. Sua obra sempre foi eminentemente
gráfica, sempre valorizou o desenho exato e suave, buscando a leveza
presente na plástica taxonômica, nos compêndios de História Natural dos
séculos XVIII e XIX, bem como nos trabalhos dos artistas viajantes
(5). Os desenhos de Walmor trazem uma profunda semelhança com
essa produção, que, como sabemos, primava pela precisão e pelo rigor
científico, já que o material coletado e analisado sustentaria estudos
acadêmicos posteriores. E tal semelhança não se percebe apenas no
tratamento do traço e da superfície, mas também na forma de organização
espacial. Historicamente, as imagens elaboradas com vista a uma função
taxonômica apresentam características constantes, sendo as principais: (1)
uso do plano frontal; (2) abolição do fundo, visto como elemento de
perturbação; (3) apresentação de pelo menos três variações do objeto
representado (Massironi: 1996: 61). Elementos, portanto, também presentes
na poética do artista e que priorizam o ato de observação.
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Observar é, pois, contentar-se com ver. Ver sistematicamente pouca
coisa. Ver aquilo que, na riqueza um pouco confusa da representação,
pode ser analisado, reconhecido por todos e receber, assim, um nome
que cada qual poderá entender: “Todas as similitudes obscuras”, diz
Lineu, “só são introduzidas para desprestígio da arte”.
Desenvolvidas elas próprias, esvaziadas de todas as semelhanças,
depuradas até mesmo de suas cores, as representações visuais vão
enfim oferecer à História Natural o que constitui seu objeto
próprio: aquilo mesmo que ela fará passar para essa língua bem-feita
que ela pretende construir. Esse objeto é a extensão de que são
constituídos os seres da natureza – extensão que pode ser afetada
por quatro variáveis. E somente por quatro variáveis: forma dos
elementos, quantidade desses elementos, maneira como eles se
distribuem no espaço uns em relação aos outros, grandeza relativa de
cada um (Foucault: 2002, 184). |
Mesmo que de forma não rigorosa, as variáveis listadas por Foucault podem
ser apreciadas nos Apêndices (2003-2004) de Walmor, bem como em algumas
imagens da série Insetos (2002-2003) e no Gaveteiro Etimológico (2003).
Mais interessante, no entanto, é como ele apresenta similitudes obscuras,
para usar a expressão de Lineu. O que une os seus seres, além da condição
híbrida e excêntrica, de formas que não se coadunam com a realidade, é
naturalmente o estatuto de dor que lhes é imposto sem piedade. Um peixe
com asas, ao sair da água, certamente se sufocará; aves com bicos
demasiadamente curvados jamais poderão comer; sapos sem patas e com asas
de libélula nunca poderão voar... Há uma manifesta e cristalina
perversidade, sutilmente mascarada no desenho de linhas suaves e singelas.
Brincando de Deus, Walmor cria seres impossíveis por seu bel-prazer, e o
faz confessadamente encantado pelas formas, mesmo que bizarras. Essa
perversidade, esse estranhamento, tão presentes nos Dioramas (2002) do
artista, são o que unifica as suas ciladas visuais.
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“Quando eu comecei a fazer os híbridos, trabalhava com sutis
deformações. Por exemplo: de longe tu vias que se tratava de uma
galinha, mas quando tu chegavas perto, tu vias que o bico era muito
pequeno, que os pés eram também minúsculos. Ou seja, era um animal
inviável, mas que convencia esse olhar menos atento do espectador,
que é justamente o que eu nunca tive. Eu ficava fascinado ao ver uma
pessoa apreciando um quadro meu. Adorava ouvir o que ela dizia.
Mesmo os espectadores que se achavam mais inteligentes e preparados
diziam bobagens diante das pinturas, do tipo: Ah, que interessante,
são galinhas. Não, não são galinhas, porque elas não poderão comer,
uma vez que o bico não serve. Elas também não conseguirão caminhar,
porque as patas não funcionam... E como aquilo estava dando certo e
as pessoas estavam comprando, maravilha! Eu percebi que poderia
vender esses trabalhos para um público menos atento, que os queria
como decoração, e poderia continuar fazendo a minha pesquisa
paralela. Para mim estava ótimo. Até um dia em que um senhor olhou
para mim e disse: Olha, é muito bonito o teu trabalho, mas esses
bichos todos vão morrer! E ele matou a charada. Havia acabado o
mistério. Uma vez que eu havia sido desmascarado, digamos assim,
senti que poderia me dedicar totalmente ao meu trabalho e a essas
brincadeiras, agora de uma maneira mais direta. O que estou dizendo
é que não havia uma ingenuidade na minha produção. Num primeiro
momento era uma diversão minha, um tanto egoísta, pode ser, de
querer seduzir pela figura, de querer mexer na forma, mas depois eu
fui inserindo outras questões” (6).
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Ao referenciar o desenho de natureza taxonômica, o artista está,
naturalmente, tomando para si o discurso de verdade que essa técnica de
representação tem incorporado. E aqui temos outro elemento marcante em sua
poética: a dicotomia entre ciência e fantasia, que é também o que move
parte das suas indagações pessoais.
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“Uma das passagens mais importantes para o meu trabalho sem dúvida
está relacionado ao episódio do besouro. Existe o chamado Número de
Reynolds, que é uma espécie de fórmula matemática para saber se algo
pode ou não voar. Pois o número de Reynolds diz que uma galinha, por
mais estranho que pareça, pode voar; que um ganso também pode. Esse
número atesta tudo o que conhecemos que voa, menos o besouro. Pela
física e pela aerodinâmica, o besouro jamais poderia voar,
entretanto ele voa!!!” (7). |
O choque diante dessa informação foi tamanho que remeteu Walmor à sua
própria condição de artista.
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“Eu de repente me vi
como um besouro. Percebi que apesar de todos os problemas da
situação do artista no Brasil, da situação do artista em Porto
Alegre, apesar de ser solitário em meu trabalho, de estar distante
dos outros artistas, apesar de várias barreiras, eu era um artista.
Eu conseguia produzir. Tudo conspirava para que eu não conseguisse;
as coisas estavam programadas para não funcionar, mas, em certa
medida, estavam funcionando. Eu estava voando, tal como o besouro”
(8). |
O Número de Reynolds seria
um desses hiatos da Ciência, uma dessas brechas por meio das quais se pode
criar, se pode livremente e metaforicamente voar. Parece ser o caso de
Walmor. Não que ele sustente o seu trabalho em teorias científicas
porventura frágeis, mas a existência delas também o estimula a criar
mesclando fantasia e uma pretensa seriedade. É o caso do já citado
Curupira. Se existem relatos de sua existência – e não são poucos – e se
há descrições muito semelhantes de pessoas que o viram, por que, então,
ele não poderia ser real? O que impede? O tão propalado rigor científico?
Qual rigor? O artista debocha e admite que muitas das suas reflexões se
pautam numa confessa incredulidade em relação aos supostos avanços e
exatidões da Ciência.
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“Eu
sempre fui uma pessoa que se questionou muito. A Ciência, por
exemplo, prima por ‘dizer a verdade’, mas nem sempre o que ela diz é
a verdade. Prova disso é que volta e meia surgem novas pesquisas
colocando no banco dos réus alimentos que antes eram considerados os
salvadores, quase que milagrosos. Esses dias eu li no jornal que um
remédio que eu inclusive uso, para a limpeza de lentes de contato,
pode causar a cegueira!!! Um remédio que justamente entra em contato
direto com os olhos pode causar cegueira!!! Ou os relatos médicos do
século XIX e até mesmo do XX, por exemplo, que discorriam sobre
coisas fantásticas, como uma mulher na Inglaterra, que dava à luz
coelhos. Aquilo também, durante muito tempo, foi defendido como uma
verdade da Ciência e até na literatura médica aparece. E agora?”
(9). |
A História é prodigiosa em
casos em que os discursos de caráter científico, presentes em impressos,
são capazes de construir uma verdade, mesmo que essa seja fraudulenta. As
descrições das viagens de Sir John Mandeville, por exemplo, foram escritas
no final da Idade Média e durante muito tempo gozaram do estatuto de
veracidade, apenas pelo fato de que o autor afirmava, ao final de cada
nova peripécia, que ele mesmo havia provado e presenciado o ocorrido. E
era tão forte a pretensão à realidade baseada num corpo que tudo
testemunhara com os próprios sentidos que, paulatinamente, ela foi sendo
consolidada e elaborada nas várias transcrições e traduções. Assim, às
histórias sobre o peixe produzido pelo mar de areia e os carneiros que
crescem em árvores, um antigo tradutor inglês acrescentou: “Eu, John
Mandeville, comi de sua carne e acredito nisso, pois seguramente é
verdadeiro”. Stephen Greenblatt, em Possessões Maravilhosas, pergunta:
Para quê a insistência? O autor também arrisca uma resposta: para aumentar
a autoridade e o prazer do texto. E sugere que a solução seja buscada numa
paródia da prova, escrita pelo monge beneditino Anselmo (1033-1109): “A
maravilha mais perfeita é a que é também uma realidade material, e a
pretensão à realidade é mais poderosa que a própria realidade” (Greenblatt:
1996, 57).
As aventuras de Mandeville
tinham tal respeitabilidade e alcance que o próprio Cristóvão Colombo, em
sua viagem que resultou na descoberta da América, trazia consigo um gasto
exemplar. E, por mais incrível que possa parecer, lugares detalhadamente
descritos, como a Fonte da Juventude, só foram tidos como fictícios no
começo do século XIX, permanecendo o autor, só ele, como uma realidade; já
no final daquele mesmo século, até o autor era denunciado como uma ficção
(Greenblatt: 1996, 52).
Ficções, invenções. Os mapas dos séculos XVI e XVII, por
exemplo, sobretudo os relacionados à América, são igualmente ricos em
representações de seres fantásticos e de lugares inexistentes. É a
cartografia do maravilhoso, a geografia fictícia. Todo um imaginário
(10) europeu, cristalizado em séculos de mitos e crendices,
projetava nessas novas terras a probabilidade de tudo o que não tinha mais
lugar no Velho Mundo. Seres como as amazonas, as harpias, os cinocéfalos,
as sereias, os unicórnios... todos seriam possíveis no continente
distante, selvagem e bestial que havia sido descoberto por Colombo (Rojas
Mix: 1992; Greenblatt: 1996; d’Escragnolle-Taunay: 1998; 1999). E uma vez
que mapear é conhecer e dominar um espaço, tais imagens, dispostas sobre a
projeção cartográfica e concebidas como axiomas, acabavam ganhando o
estatuto de verdade, até que outra verdade se impusesse, na mutação das
descobertas e da própria Ciência. Novamente, trata-se de um jogo entre a
realidade e a imaginação. Um jogo que o texto ajuda a sustentar.
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Uma
imagem científica (ou uma representação iconográfica de conteúdo
científico) se concebe sempre para dar a aparência de realidade, ou
seja, intenta representar o objeto tal como ele foi observado pelo
investigador. Segundo Karl Popper, essas imagens só nos falam, no
melhor dos casos, de qual é o “mundo das experiências conscientes do
observador”. Esse aspecto subjetivo ou pessoal é fundamental na
compreensão da iconografia científica considerada como arte e é um
elemento decisivo para seu estudo quanto ciência (Trabulse: 1995,
23). |
O texto nos trabalhos de Walmor Corrêa também autoriza.
Feito à maneira de anotações de um pesquisador diante de seu objeto de
estudo, ele pode estabelecer distintas relações. Pode, por exemplo, apenas
indicar os nomes pretensamente científicos das espécies apresentadas. E
aqui é interessante notar que muitos dos espécimes criados ganharam
nominata em alemão (11). Certamente
porque a própria estrutura da língua permite a junção de palavras, criando
expressões no mínimo curiosas. Assim, os Apêndices trazem animais como o
Amphibiem mit Schnabel, ou o Move mit Krallem, este último uma gaivota com
presas de caranguejo.
O texto igualmente discute
ou complementa as imagens, explicando-as (naturalmente, as imagens
constituem, nesse caso, uma “explicação” para o texto, se as tomarmos no
seu caráter ilustrativo), além de narrar historietas. Muitos desses
escritos, como já foi comentado, constituem grandiosas patuscadas. São
engodos, frases constituídas a partir da fantasia do autor. Outros são
articulados num jogo de palavras, bem como de suas sonoridades. Novamente
aqui há um encanto pela forma: Um dia chuvoso e escuro de luz clara na
aurora boreal. Ora, não há sentido algum na assertiva. Um dia chuvoso e
escuro não pode ter luz clara... e a aurora boreal não é um lugar!
Trata-se de outra arapuca, desta vez do texto.
Se tomarmos como referência
uma vez mais os Apêndices, veremos que de um lado Walmor liga um híbrido
encantador pelas formas a um texto igualmente ardiloso, recheado de
palavras excêntricas, de construção falsamente científica e, de outro,
trabalha com um desenho primoroso e com a formatação dos elementos no
espaço da tela obedecendo aos padrões dos antigos compêndios de História
Natural. Ou seja: há tanto uma emboscada constituída pelo conjunto
figura-forma, como o artifício de verdade e de ciência proposto pela
estrutura de apresentação; há tanto uma cristalina mentira no conteúdo,
como o discurso legitimador no formato. Trata-se de uma tensão, de um
conflito entre as partes constitutivas do trabalho, e não deixa de residir
aqui o encanto maior da obra de Walmor Corrêa. Essa tensão permeia toda a
produção do artista: ela está nas suas dúvidas em relação à ciência, no
processo de hibridização dos seres, nos nomes dados às criaturas, nas
descrições delirantes dos espécimes, na forma como esses seres são
arrolados. A tensão está corporificada em seu trabalho, ela se
presentifica nele; é ela que também estimula o observador a escarafunchar
as relações propostas, excitando o olhar, exercitando a percepção.
Unheimlich
Em sua pretensa veracidade,
até hoje os híbridos convencem muita gente. Sobretudo o público
estrangeiro. Em exposições internacionais, não são poucas as pessoas que,
impressionadas, perguntam se aqueles animais realmente existem, onde eles
estão, como se faz para conseguir um... Em certa medida, trata-se da
permanência do antigo imaginário fabuloso ligado ao Novo Mundo
(12); da força de certas imagens e projeções, que poderíamos
chamar, adotando o termo e a compreensão de Stephen Greenblatt, de
capitais.
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As
imagens que contam, que merecem o nome de capital, são dotadas de
poder de reprodução, que se sustentam e se multiplicam transformando
contatos culturais em formas novas e não raro inesperadas. (...) Uma
dada representação não é apenas o reflexo ou produto de relações
sociais, mas também uma relação social em si mesma, ligada à
compreensão grupal, às hierarquias, às resistências e aos conflitos
existentes em outras esferas da cultura nas quais ela circula. Ou
seja, as representações não são só produtos, são igualmente
produtores capazes de modificar decisivamente as próprias forças que
lhe dão nascença (Greenblatt: 1996, 22-23). |
Diversos mitos introduzidos
em culturas colonizadas, ao encontrarem território fértil para se
enraizar, ao encontrarem público atento e interessado em suas
especificidades, acabaram se adequando e promovendo mudanças não somente
de caráter social como em relação ao próprio mito. São imagens capitais,
na acepção de Greenblatt; imagens que estabelecem relações sociais em si
mesmas. Várias delas trafegam no imaginário brasileiro. E como seria
diferente? Terra Brasilis, de crenças e raiz indígena, de presença negra
de deuses vários, de miscigenações constantes, de misturas muitas, de
canibalismo e de sincretismo... Quão ricos são os espaços para a exortação
desse imaginário! E é justamente sobre parte desse manancial que se
debruça Walmor Corrêa na sua nova série, Unheimlich.
A palavra Unheimlich foi
tomada de um texto de Sigmund Freud datado de 1919. Ela referencia o que
não é doméstico, corriqueiro, o que é estranho e pode causar medo. É
justamente esse sentimento que perpassa as novas criaturas mapeadas por
Walmor, mestiças de humanos com animais, todas oriundas do imaginário
popular do país. De certa forma, é como se o artista quisesse ratificar
algumas das projeções fantásticas dos europeus no período dos
descobrimentos, quando eles acreditavam que a América era o território das
mais escabrosas aberrações. Além do Curupira, já citado, integram a série
a Cachorra da Palmeira, misto de mulher e cadela, proveniente de uma
história de Alagoas; o Capelobo, meio homem, meio tamanduá, comum nos
relatos da Amazônia; o Ipupiara, confundido em alguns lugares com o boto,
metade lobo marinho, metade homem; e a Ondina, ou sereia, mulher-peixe.
Se antes a perversidade em
apresentar animais impossíveis, improváveis, fadados ao sofrimento e
inclusive à morte pontuava as imagens do artista, agora ele se volta aos
infortúnios de homens acometidos da maldição do híbrido.
Câmara Cascudo lembra que a metamorfose bestial como forma
de penitência, passageira ou permanente, é um velhíssimo ditame da cólera
divina no mundo greco-romano antigo. Licaon tornou-se lobo; Io
transformou-se em vaca; Cicnus em cisne; Calisto em urso; Ociroé em égua;
Acteon em veado; Hermione e Cadmus em serpentes; as filhas de Minias em
morcegos; Aracné era aranha; Filomena transformou-se em rouxinol; Procné
em andorinha; Nisus em águia; Dedalion em gavião; Hécuba em cachorra...
todos mitos contados e relatados por Ovídio em suas Metamorphoses
(Cascudo: 2002). Nos mitos gregos, a condição de um híbrido é sempre
tratada como dolorosa, mesmo que a ele tenham sido atribuídos poderes
sobrenaturais, o que os faria superiores aos humanos normais, como é o
caso das sereias, que seduziam e enfeitiçavam pelo canto, ou mesmo a
temida Medusa, misto de mulher com escorpião e cabelos de serpente, que
petrificava com um único olhar. A problemática dos híbridos humanos é que
eles não poderiam naturalmente ter uma vida como a de qualquer “reles
mortal”. Também há na condição deles, portanto, a perversidade. E assim
como eles sofrem, eles fazem sofrer. O mesmo se passa com os seres
unheimlich de Walmor Corrêa. O Ipupiara (13), o Capelobo e o Curupira
matam. A Ondina leva seus escolhidos para o fundo do mar, tirando-lhes a
vida. A única condicionada a apenas viver miseravelmente é a Cachorra da
Palmeira (14).
Walmor optou por mostrar
essas figuras estanques, sem vida, soltas no espaço e escalpeladas. Ao
mapeá-las, ao expor as suas mais complexas estruturas fisiológicas
assimiladas e compreendidas, ele estaria sustentando a condição de verdade
para esses híbridos; estaria dando subsídios científicos para que o
espectador possa acreditar na existência dos mesmos.
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“Quando eu tiro esse animal da vida das pessoas, lá da dona Maria da
Amazônia que viu uma sereia e tal... quando eu tiro essa informação
do cotidiano e a coloco num compêndio de ciências, eu estou dizendo
à dona Maria que a mentira está certa. É aí que eu subverto os dois
lados, só que o conceito nesse caso não é um conceito externo. O
conceito não vem antes, ele vem junto. Da mesma forma o texto: para
mim ele é a mesma coisa que o desenho, ele integra o desenho. Como
vou falar sobre esses animais imaginários, se quero ter uma relação
com a Ciência, sem ter uma proximidade com a verdade, ainda que
visual? Como vou convencer hipoteticamente que esses animais estão
sendo feitos para serem colocados num compêndio de ciência? É essa a
minha brincadeira” (15). |
A fantasiosa dissecação é
também ela um capricho: muitas vezes o corpo é exibido como se fosse
possível entrever sob a pele o interior do mesmo, numa relação
dentro-fora. E nem tudo foi anatomizado, apenas as partes que o dissecador
julgou interessante esmiuçar. O corte no corpo está geralmente situado no
tórax, tendo sido pinçados os detalhes sobre os quais se queria discorrer.
Nesse momento, ao invés de explicar de forma descomprometida e ludibriosa
a mecânica dos órgãos, como fizera nos Apêndices, Walmor optou por
recorrer a médicos. Queria saber como a máquina do corpo funcionaria em um
ser híbrido. Conversou, entre outros, com um cardiologista, com um
ginecologista, com um ortopedista, tendo sido recebido com um misto de
incredulidade, surpresa e fascínio. Ora, se a sereia pode descer a grandes
profundidades marinhas, como o seu corpo responderia à pressão? E será que
ela menstrua? Como seria a gestação de uma sereia? Todo o trabalho iniciou
com a formulação desse tipo de pergunta. Surpreendentemente, Walmor foi
encontrando respostas plausíveis para várias dessas indagações, que o
permitiram visualizar os seres. Além da colaboração de médicos, leituras e
anatomias comparadas ajudaram-no a esboçar as figuras, para as quais
gradualmente ia encontrando feições e rostos, alguns semelhantes aos
descritos pela tradição oral.
Só depois de abastecido com
múltiplas informações e sabendo como trabalharia as imagens Walmor iniciou
a feitura das mesmas. Seu processo, a partir deste momento, obedece a uma
técnica muito pessoal. Primeiro o artista fotografa os modelos na posição
desejada. Depois, vai direto para a tela, desenhando com precisão o
contorno da figura. Começa então a cobrir a figura com camadas e camadas
muito suaves de tinta acrílica, sempre de cima para baixo e de forma nada,
absolutamente nada ortodoxa: ao invés de usar pincel, ele a espalha com um
secador de cabelos! À medida que vai descendo pelo corpo, sinaliza, com
papéis que fixa nas bordas do quadro, os elementos que irá trabalhar,
sobre quais órgãos irá discorrer. Quando surgem dúvidas específicas,
recorre uma vez mais aos médicos. Concluída a figura central, os
comentários. Detalhes dos membros e órgãos são reproduzidos, um título
objetivo é colocado e um texto estruturado. Aqui, sim, entra um elemento
novo. Os textos, ao invés do caráter anteriormente divertido, assumem um
tom de gravidade e de compromisso com a veracidade. Eles são resultado das
entrevistas e das leituras feitas, das relações estabelecidas entre os
animais que originaram o híbrido, como a mulher e o peixe, que
possibilitaram a Ondina. Tal estratégia, para o artista, era a forma de
trazer esses seres à luz da Ciência, ou da pretensa Ciência. No caso dos
Apêndices, ele trabalhava com pura fantasia. Fantasia que brotava dos
seres e dos textos. Dessa vez, não. Dessa vez Walmor dá aos seus seres
unheimlich a possibilidade da existência tanto pela forma como pelo
discurso. Se, historicamente, a linguagem escrita sempre teve o caráter de
informar a verdade, de atestar os acontecimentos, agora ela assumiria mais
do que nunca esse papel. Lendo os textos o espectador poderá se perguntar
se, de fato, aquela estrutura descrita acerca dos ligamentos do pé do
Curupira não seria possível; se o funcionamento do aparelho respiratório
da Ondina não seria factível; se da laringe do Ipupiara realmente não
sairia um urro animalesco...
É imprescindível pontuar que esse estranho assimilado de
Walmor Corrêa não é um fato isolado no mundo da arte. Artistas como Thomas
Grunfeld, Marc Swanson, Jeffrey Vallance, John Fontcuberta e o polêmico
Shen Shaomin (16), entre outros, também
têm instigado o observador com seres fora do espaço e do tempo. Ao
apresentar esse estranho assimilado, Walmor Corrêa não somente nos encanta
com as fascinantes formas de suas criaturas, como nos instiga a observar
argutamente tudo. Seus seres, tal como num antigo Gabinete de
Curiosidades, subvertem os limites do real e colocam em suspensão as
certezas humanas diante da vida na Terra. Cutucam-nos, provocam-nos,
obrigam-nos a pensar... reafirmam um dos principais papéis da arte.
Paula Ramos é jornalista, crítica de arte e doutoranda em Artes
Visuais, ênfase em História, Teoria e Crítica de Arte/UFRGS (Porto Alegre,
RS). É professora de História da Arte junto ao Centro Universitário
Feevale (Novo Hamburgo, RS) e ao Centro Universitário Ritter dos Reis
(Porto Alegre, RS).
Referências Bibliográficas
26. Bienal Internacional de
São Paulo. (Catálogo da Mostra). São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo,
2004.
BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. O Brasil dos Viajantes. São Paulo: Editora
Objetiva; Metalivros, 2000.
CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. São Paulo:
Global Editora, 2002.
CASCUDO, Luís da Câmara. Lendas Brasileiras. Rio de Janeiro: Ediouro,
2000.
CORRÊA, Walmor. Natureza Perversa. (Catálogo de Divulgação da Obra do
Artista). Porto Alegre, 2004.
FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes,
2002.
GREENBLATT, Stephen. Possessões Maravilhosas. São Paulo: Edusp, 1996.
Lendas do Índio Brasileiro. Organizado por Alberto da Costa e Silva. Rio
de Janeiro: Ediouro, 2001.
MASSIRONI, Manfredo. Ver pelo Desenho. Lisboa: Edições 70, 1996.
MIX, Miguel Rojas. América Imaginaria. Barcelona: Editorial Lúmen, 1992.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. Belo Horizonte:
Editora Autêntica, 2003. TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. Monstros e
Monstrengos do Brasil: Ensaios sobre a Zoologia Fantástica Brasileira nos
séculos XVII e aXVIII. Organização de Mary Del Priore. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998
TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. Zoologia Fantástica do Brasil (Séculos XVI e
XVII). Apresentação de Odilon Nogueira de Matos. São Paulo: Editora da
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TRABULSE, Elias. El Lenguaje y la Imagen. In: Arte y Ciencia en la
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(1)Trecho citado em CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos
Mitos Brasileiros. São Paulo: Global Editora, 2002, p. 112.
(2) Citado em Cascudo: 2002, 107.
(3) Representação, categoria central da História Cultural, é
aqui compreendida como “a presentificação de um ausente; é um
apresentar de novo, que dá a ver a sua ausência. A idéia central é,
pois, a da substituição, que recoloca uma ausência e torna possível
uma presença. A representação é conceito ambíguo, pois na relação que
se estabelece entre ausência e presença, a correspondência não é da
ordem do mimético e da transparência. A representação não é uma cópia
do real, sua imagem perfeita, espécie de reflexo, mas uma construção
feita a partir dele. (...) A representação envolve processos de
percepção, identificação, reconhecimento, classificação, legitimação e
exclusão” (Pesavento: 2003, 40).
(4) Nasceu em Florianópolis em 1961. Chegou a estudar
Arquitetura, mas sem concluir. É bacharel em Publicidade e Propaganda
pela Unisinos. Nos anos 80 estudou técnicas de pintura e desenho junto
ao Atelier Livre da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. O desenho
preciso e delicado, que marca a sua produção, diz que desenvolveu
sozinho. Desde 1983 o artista vem participando de mostras coletivas
pelo Brasil e no exterior. Em 2002 integrou a mostra
Apropriações/Coleções, no Santander Cultural, em Porto Alegre, com
curadoria de Tadeu Chiarelli. A exposição foi um marco em sua
trajetória, divulgando suas pinturas cuja temática já se alicerçava
nos híbridos de animais. Dois anos depois, expôs no Centro
Universitário Mariantônia da Universidade de São Paulo e na 26 Bienal
Internacional de São Paulo, com sala especial, e também integrado ao
projeto A Expedição Brasileira de Thomas Ender revisitada, uma
parceria da Academia de Artes de Viena e da Fundação Bienal de São
Paulo. Participa, em 2006, com a série Unheimlich, da mostra
Cyptozoology, na H&R Artspace e na Bates College Museum of Art, ambas
na cidade de Kansas, Estados Unidos. Vive e mora em Porto Alegre, Rio
Grande do Sul (cronologia anexada no final).
(5) O próprio Walmor Corrêa participou, em 2004, de uma
“reedição” da Expedição Austríaca no Brasil, que aconteceu entre 1817
a 1821, em comemoração à vinda da Arquiduquesa Austríaca Carolina
Josefa Leopoldina para o casamento com D. Pedro I. Nessa expedição de
caráter científico participaram artistas como Thomas Ender (sobretudo
responsável pelas paisagens) e Carl Friedrich Philip Von Martius
(botânico). Em 2004, ao longo de duas semanas, foi refeita a viagem
específica que Thomas Ender realizou entre abril de 1817 e junho de
1818 pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Foram
convidados para integrar o projeto sete artistas: Mark Dion, que
assumiu o papel do primeiro naturalista; os estudantes da Academia de
Belas Artes de Viena Franz Christoph Amann, segundo naturalista; Georg
Paul Tiller, cartógrafo; Karin Felbermayr, embaixadora; e Christian
Mayer, cronista; e os brasileiros Walmor Corrêa, botânico; e
Bartolomeo Gelpi, pintor de paisagem e etnógrafo. A expedição contou
ainda com a orientação do Dr. Robert Wagner, da Academia de Belas
Artes de Viena, considerado o maior especialista em Thomas Ender. Os
trabalhos resultantes dessa atividade foram expostos depois em duas
ocasiões: durante a 26. Bienal Internacional de São Paulo, em 2002, e
na própria Academia de Belas Artes de Viena, em 2005.
(6) Em entrevista à autora em 27 de abril de 2006.
(7) Em entrevista à autora em outubro de 2004.
(8) Em entrevista à autora em outubro de 2004.
(9) Em entrevista à autora em 27 de abril de 2006.
(10) Outro conceito fundamental da História Cultural,
imaginário é “um sistema de idéias e imagens de representação coletiva
que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido
ao mundo. A idéia do imaginário como sistema remete à compreensão de
que ele constitui um conjunto dotado de relativa coerência e
articulação. A referência de que se trata de um sistema de
representações coletivas tanto dá a idéia de que se trata da
construção de um mundo paralelo de sinais que se constrói sobre a
realidade, como aponta pra o fato de que essa construção é social e
histórica” (Pesavento: 2003, 43).
(11) Há também diversos híbridos com nomes em latim.
(12) Esse fenômeno em parte oferece respostas a situações
que nos deixam perplexos, como o fato de muitos europeus ou
norte-americanos acreditarem que pelas ruas do Brasil trafegam
livremente macacos e cobras; fato, inclusive, recentemente discutido
depois que um episódio de televisão da série Os Simpsons, cuja
aventura se passava no Brasil, ter representado a cidade de São Paulo
como suas grandes avenidas repletas de cipós e de macacos. Os próprios
habitantes teriam de mover-se por meio de cipós, tal como macacos. É
claro que aqui havia muito mais do que a permanência de um
imaginário...
(13) Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros,
resgata um relato do Padre Fernão Cardim, do século XVII, editado em
Tratados de Terra e Gente do Brasil, Rio de Janeiro, 1925. O padre
informava acerca do Ipupiara: “Estes homens marinhos se chamão na
lingua Igpupiará, têm-lhe os naturais tão grande medo que só de
cuidarem nelle morrem muitos, e nenhum que o vê escapa; alguns
morrerão já, e preguntando-lhes a causa, dizião que tinhão visto este
monstro; parecem-se com homens propriamente de boa estatura, mas têm
os olhos muito encovados. As fêmeas parecem mulheres, têm cabelos
compridos e são formosas; achão-se estes monstros nas barras dos rios
doces. Em Jagoaribe sete ou oito leguas foi perseguido de hum, e
acolhemdo-se em sua jangada o contou ao senhor; o senhor para animas o
índio quiz ir ver o monstro, e estando descuidado com huma mão fora da
canoa, pegou nelle, e o levou sem mais aparecer, e no mesmo anno
morreu outro índio de Francisco Lourenço Caeiro. Em Porto Seguro se
vêem alguns, e já têem morto alguns índios. O modo que têem para matar
he: abração-se com a pessoa tão fortemente beijando-a, e apertando-a
consigo que a deixão feita toda em pedaços, ficando inteira, e como a
sentem morta dão alguns gemidos como de sentimento, e largando-a
fogem; e se levão alguns comem-lhes os olhos, os narizes e pontas dos
dedos dos pés e mãos, e as genitálias, e assi os achão de ordinário
pelas praias com estas cousas menos”.
(14) Um dos mais populares personagens do Brasil, o padre
Cícero Romão Batista, faleceu na cidade de Juazeiro, Ceará, no dia 20
de julho de 1934. Enlutada e entristecida, a comunidade não cessava de
lembrar a figura do religioso; as mulheres, recolhidas ao negro das
roupas, rezavam sempre, encomendando a alma daquele que desde já
julgavam um santo. Certo dia, porém, incomodada com o luto dos outros,
uma moça que há pouco perdera uma cachorrinha e cujo nome não passou à
verdade do papel, teria dito que seria melhor usar o luto em homenagem
ao cão do que pelo desaparecimento do padre. Minutos depois, num
fenômeno apenas explicável pela ira divina, a moçoila foi atacada pelo
desejo de morder, latir, uivar e correr como um cachorro, até que se
transformou em um próprio. Castigo. Ela é a Cachorra da Palmeira,
condenada a ter filhotes também eles mistos de cachorro e gente.
(15) Em entrevista à autora em 27 de abril de 2006.
(16) Todos, inclusive Walmor Corrêa, participantes da mostra
Cryptozoology, que se estendeu de junho a outubro de 2006 no Bates
College Museum of Art, dos Estados Unidos.
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