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Perversa natureza sedutora
Blanca Brites
Porto Alegre, No sol do inverno de 2003
O olhar solto no tempo, examina imagens que se revelam nesta “Natureza
Perversa”, onde inesperado nos surpreende. Mesmo prevenidos pela nominação
que Walmor Corrêa deu à sua mostra, somos imperceptivelmente envolvidos na
armadilha, que ele preparou para os visitantes que se aventuram neste
quase gabinete de curiosidade. Jogando com uma espécie trompe l'oeil, ele
engana nosso olhar e também nossos sentidos, mas permite, por meios
transversos, que a arte possa nos transportar para territórios
indecifráveis e inacessíveis.
A arte na vivência do cotidiano, colada às exigências da
contemporaneidade, aceita construções de inventários que resgatam a perda
da memória, seja através de mitologias individuais, ou de registros de uma
natureza ameaçada a esquecer sua origem. Nesta última, encontram-se as
obras de Walmor, que aqui muda radicalmente seu caminho, embora, continue
presente a soma do gesto seguro do desenho e o domínio da pintura, que
marcaram seus trabalhos anteriores.
Temos diante de nós painéis com animais aparentemente familiares ou já
conhecidos dos compêndios de zoologia. No entanto, algo nos inquieta. Uma
dúvida se impõe. Alguma coisa não está em seu lugar habitual e foge ao
controle. Pequenos detalhes atraem o olhar, causando sensação de
estranhamento. Aos poucos, esses detalhes se tornam mais definidos,
evidenciando uma fauna que se mostra em todo sua complexidade híbrida,
deixando intuir a mescla das varias espécies. Exemplificando, ali se
encontra o peixe hermafrodita com plumas e asas; a tartaruga roedora; a
ave com cabeça de macaco; pássaro-gato; aves com presas de caranguejo. E
mais inúmeras combinações de insetos, que poderiam ser resultantes da
evolução genética que, no momento atual, abre possibilidades de criação de
uma outra natureza. É possível detectar uma certa denuncia pela ameaça
desses animais
ainda ... inexistentes. Há também o ''Besouro Em ação- Programado para não
voar'', com olhos sob as asas, desafiando a ciência que justifica sua
impossibilidade de voar e no entanto ele voa. Assim como a arte que, ao
nos permitir usufruí-la em vôos impossíveis, prova a necessidade de sua
existência.
Em “Catalogações” seus espécimes são batizados com nomes, da mesma forma
insólitos, em alemão - “Möve mit Krallem” (Gaivota com garras) ;
“Wirbeltierspinne” (Aranha vertebrada) ; “Amphibiem mit Schnabel” (
Anfibio com bico) - língua que permite também uma certa liberdade na
junção inabitual de palavras, ou recebem uma fictícia denominação latina
como o “Apterigiformes Aco II”, acompanhando a tradição acadêmica. A
continuação de seu jogo irônico, segue com os títulos: "Diorama Cartesiano
I e II", referência velada ao sentido de racionalidade, herança da
filosofia cartesiana.
A linguagem realista, o preciosismo, o acabamento, a perícia técnica de
Walmor, se ajustam às exigências de sua proposta e do momento
contemporâneo; ao mesmo tempo em que tornam esses animais convincentemente
verídicos, sendo quase impossível não acreditar na existência real dos
mesmos. Mas o impacto maior ocorre quando tomamos consciência de termos
caído na cilada da visão rápida, desatenta, que vê sem olhar. O olhar
hipnotizado do observador, fixo a cada painel, parece corresponder à
intenção de diálogo que o artista busca estabelecer. Diálogo este no
mínimo dúbio, pois aos poucos se percebe que a - perversidade- não está
unicamente nas aberrações dessa natureza, mas sim, na situação de refém em
que ele nos coloca e com a qual parece se divertir. Walmor estabelece uma
relação na qual ele é o observador de nosso assombro frente ao exotismo
que nos oferece. A situação parece então se inverter, e são as nossas
reações que passam a merecer o olhar do artista.
Em seus trabalhos se percebe uma disciplina que, embora obedecendo a uma
lógica própria, lembra os estudos dos entomologistas, sobretudo nas
gavetas mostruários onde, insetos ordenadamente pintados lado a lado,
estão afixados com alfinetes reais. Tal organização sugere a intenção de
um colecionador, que cuidadosamente dispõe suas raridades, mas deixando
sempre reservado o espaço da próxima conquista, que será sempre o objeto
de desejo, o ainda inalcançável. Presente ainda o prazer do colecionador,
que busca no olhar de admiração do outro sua realização.
O artista constrói este insólito universo, conjugando em sua estrutura
pictórica duas dimensões: a visual e a narrativa. As inscrições são feitas
à grafite numa ortografia que, embora legível, não tem o intuito de
facilitar a leitura, mas de instigar a que cada um complete a narrativa
por si mesmo. Nesta ele apresenta os hábitos alimentares, assim como o
funcionamento dos órgãos internos, aparelho reprodutor, estágios de
crescimento, anatomia comparada, e uma prospecção evolutiva de cada
espécie. A medida que nos detemos para acompanhar estas identificações
classificatórias, somos levados, cada vez mais, a acreditar na existência
concreta desses animais. Tal veracidade, embora falsa, é reforçada, pelo
relato minucioso, de estórias criadas para cada animal imaginário, que
passa a ter vida autônoma, com peculiaridades como o " Wirbeltierspinne,
que possui uma glândula que libera uma substância tóxica através de
finíssimos ductos localizados no interior de seus dentes superiores, ao
atingir a pele, tal substância causa vermelhidão na área seguida de
acessos de riso que podem levar a vítima a literalmente morrer de rir por
asfixia". Buscando amparo no rigor metodológico, ele nos mostra ainda os
animais em várias vistas, através de cortes transversais, onde fica
evidenciada a compleição física, a estrutura óssea, permitindo compreender
de forma acessível sua fisiologia. Estes cortes são assépticos, indicando
uma pseudo-neutralidade cientifica, ou podendo ser também resquícios de
sua formação de arquiteto.
Walmor não navega por marés surrealistas. Suas imagens desestabilizam
nosso olhar, mas gradualmente, de forma tranqüila. Não há exploração da
ordem emocional. Seus bichos tão pouco são agressivos, seja em seu aspecto
físico, em sua índole ou em sua expressão formal. Ao contrario, em alguns
casos, há uma atração quase lúdica, lembrando uma ilustração infantil.
Contrastando com toda a efervescência da narrativa, pela quantidade de
informações, está a passividade transmitida também pelas cores suaves
desses animais. Nesta natureza utópica eles estão em soltos em uma
espacialidade silenciosa e serena, em telas de fundo em acrílico branco.
É possível acompanhar o caminho seguido pelo artista. Inicialmente através
dos ''Dioramas I e II'' em grandes telas com múltiplos animais ambientados
em uma natureza quase etérea, mas com espaços individualizados, onde cada
um ganha destaque próprio. Seus Dioramas lembram cartazes instrutivos de
zoologia do século XIX. Na série "Catalogações", ele elege um animal
para, minuciosamente evidenciar sua evolução, seu meio ambiente, sua
estrutura física. Em continuidade estão os grandes esqueletos
monocromáticos que poderiam lembrar dinossauros de épocas remotas, ou ao
contrário, a ampliação em grande escala de seus animais minúsculos. Nestes
a intenção quase obsessiva de catalogação parece chegar a seu extremo,
nomeando todos os ossos de forma didática. É como se Walmor intencionasse
despi-los de qualquer elemento complementar de encantamento. Agora é o
esqueleto em sua
essência, pureza, força, crueza lembrando um designo de morte, ou os
restos de uma vida inexistente, mas sem morbidez. Porém, permanece ainda
a mesma intenção do olhar clinico, sem emotividade, mas que continua
envolvente.
Walmor nos mantém envolvidos a essa natureza perversa, porque a aparência
que nos engana, também nos conquista, pela simplicidade de inventar uma
natureza sedutora que pode maravilhar nosso olhar cotidiano.
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