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WALMOR CORRÊA:
SOBRE O ILUMINISMO E SUAS SOMBRAS

FERNANDO COCCHIARALE

ENTRE CAMPOS
Walmor Corrêa extrai de campos diversos do conhecimento humano ocidental a matéria-prima icônico-poética de seu trabalho. Biologia, história natural, arqueologia, paleontologia, botânica e mitologia convergem para os processos de invenção e produção deste artista. Sob a trama interdisciplinar visualmente explícita em sua obra (imagens similares às desenhadas, pintadas ou montadas por desenhistas biólogos), existem evocações verbais, indispensáveis ao exercício do devaneio sensório-especulativo suscitado no observador pela produção contemporânea.

Oposto à linguagem visual pura ou autorreferente, característica da produção modernista, o teor semântico, isto é, o sentido verbal inerente a toda imagem, demanda sempre a imediata correlação do que nela é visto, com o que sabemos (ou já vimos), por meio da palavra, situada fora do âmbito de sua configuração estrita. Imagens sempre nos remetem aos seus referentes reais, isto é, a realidades externas que a composição representa ou simboliza.

Por conseguinte, o sentido e a estratégia poética comuns ao conjunto da produção de Walmor Corrêa encontram-se, primeiramente, na confluência dos elementos figurados em suas pinturas, impressões, objetos, montagens, taxidermias e instalações (arte), com métodos icônicos de classificação (ciência) desenvolvidos por um novo tipo de viajante europeu, surgido a partir do século XVIII: o pesquisador naturalista e o biólogo, dedicados a mapear flora, fauna, geologia, geografia, grupos raciais e étnicos de todo planeta.

BIOLOGIA IMAGINÁRIA
A Biologia imaginária de Walmor é apresentada de modo deliberadamente semelhante ao das classificações da natureza produzidas, sob os auspícios do pensamento iluminista, no contexto da revolução industrial e científica ocorrida entre os séculos XVIII e XX.

Tal semelhança se evidencia no modo pelo qual as espécies inventadas pelo artista estão expostas no espaço em inventários fictícios (seja em suportes de fundo branco sobre os quais se ordenam em pranchas, seja quando montadas a partir da mistura de esqueletos ou de partes empalhadas de diferentes animais à maneira dos dioramas exibidos nas vitrines dos museus de história natural). Mas a semelhança desses dois sistemas não se restringe à esfera icônica. Muitos nomes dos trabalhos e das séries de Corrêa reforçam a intenção do artista em remeter seu sistema àquele das taxonomias naturalistas das disciplinas científicas consolidadas a partir do Século das Luzes.

Mais que uma titulação, esses nomes funcionam como explicitações de campo que atravessam seu processo produtivo há mais de duas décadas – Natureza perversa (2003), Apêndice – Mostruário entomológico (2004), Unheimlich (2005), Metamorfoses e Heterogonias (2007), Atlas de Anatomia (2007), Bibliotecas dos Enganos (2009), Diorama Cartesiano (2010), Híbridos (2011), Dioramas (2012) e Sítio Arqueológico (2012), por exemplo. Algumas dessas séries condensam a estratégia e o sentido poético comuns ao conjunto da obra do artista.

Em depoimento escrito sobre A Expedição Brasileira de Thomas Ender Reconsiderada, Walmor Corrêa observa que:

Em 2004, fui convidado pela Fundação Bienal de São Paulo a participar de um projeto realizado pela própria FBSP em parceria com a Academia de Belas Artes de Viena. O projeto consistia na reedição da expedição artística austro-bávara, organizada em 1817, por ocasião do casamento da Arquiduquesa da Aústria, Princesa Leopoldina, com o príncipe D. Pedro I […]. Reuniu artistas alemães, austríacos e dois brasileiros, além do americano Mark Dion. Cada artista assumiu um dos personagens da missão original, digamos assim. E eu era o botânico. De porte de mapas e de anotações da época, visitamos regiões do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, áreas que também Thomas Ender teria percorrido. O nosso exercício era sempre baseado em busca e comparação: pegávamos a reprodução de uma paisagem de Ender e, andando por esses lugares, buscávamos a mesma paisagem na natureza contemporânea, ou a mais aproximada. E quando encontrávamos, era ali ou a partir dali que fazíamos os nossos trabalhos.

O interesse de Walmor por expedições científicas, no entanto, sobretudo aquelas que passaram pelo Brasil, não surgiu motivado por este convite. Corrêa só foi chamado para refazer o percurso de Ender com artistas de outras nacionalidades porque seu trabalho precedente o credenciava de maneira inequívoca para ingressar no projeto.

A reconstituição do percurso original da Expedição de Ender permitiu aos seus novos integrantes mapear semelhanças e, sobretudo, diferenças, tanto geográficas, quanto sócio-econômicas, que atualizaram a expedição levada a cabo 187 anos antes, num contexto histórico bastante diverso daquele em que ocorreu pela primeira vez.

No caso específico da produção de Walmor, esta reconstituição permitiu que ele pudesse imantar questões icônico-poéticas de sua biologia imaginária com a experiência concreta, ainda que de curta duração, de uma rotina de trabalho semelhante à dos naturalistas viajantes que referenciaram seu trabalho – desde então, ele passou a atravessar o campo de seu repertório iconográfico em direção à história.

As imagens de Corrêa constroem, portanto, pontes semânticas que conectam a lógica interna de seu trabalho à exterioridade mundana. A evidente afinidade entre os ícones da biologia e os ícones da taxonomia imaginária proposta pelo artista, e, entre esta e a dos repertórios classificatório-morfológicos da biologia pré-darwinista – em que os cientistas viajantes desempenharam um papel fundamental −, autoriza a inscrição sutil do campo estrito das imagens produzidas pelo artista no universo da palavra.

Aqui podem ser estabelecidas analogias entre seus ícones imaginários e tensões histórico-sociais que, invisíveis nos trabalhos, são por estes indiretamente aludidas: a interdependência entre os saberes dos viajantes-cientistas (dos quais Darwin talvez seja o melhor exemplo) e a expansão imperialista do capital; o papel do conhecimento na relação centro-periferia e, finalmente, a construção de um gigantesco panorama planetário contrastado por sombras das luzes lançadas sobre o mundo pela dominação europeia.

Tecidas a partir da conquista econômica, da dominação política e espiritual do Novo Mundo, as tramas dessa rede foram amarradas por conquistadores, nativos, escravos, aventureiros, corsários, colonos, comerciantes, militares, marinheiros, prostitutas, religiosos, artífices, arquitetos, artistas, atrizes, cantores, ladrões, modistas, músicos, imigrantes, escritores, viajantes, naturalistas, cientistas, e todo tipo de gente transplantada pelo colonialismo.

No entanto, o mencionado transbordamento da obra de Walmor Corrêa não se dispersa na remissão genérica ao contexto sócio-histórico da expansão europeia. Ele, ao contrário, sinaliza que a geopolítica capitalista e seus métodos de classificação icônica, vigentes desde o Iluminismo, são complementares, contradizendo discursos, conservadores ou ingênuos, que creem na neutralidade científica do método, não conseguindo perceber sua vinculação profunda com a lógica operacional do que Foucault chamou de sociedade disciplinar.

Por outro lado, a noção de viajante − elo que conecta a biologia inventada por Corrêa com o período histórico que a contextualiza − é uma noção por demais abrangente. Não podemos perder de vista que a imprecisão do termo amalgama práticas muito distintas, tanto funcional, como socialmente.

Em consonância com as mudanças econômicas, políticas, simbólicas, religiosas e científicas ocorridas nos oito últimos séculos, o papel dos viajantes teve de adequar-se a objetivos tão diversos quanto, por exemplo, os de Marco Polo (séc. XIII), Vasco da Gama (séc. XV) e Cristóvão Colombo (séc. XV), Pedro Álvares Cabral (séc. XVI), Hernán Cortez (séc. XVI), Francisco Pizarro (séc. XVI) e Charles Darwin (séc.XIX).

Informações extra-visuais como as acima propostas sempre instrumentalizaram os métodos de invenção e de produção de Walmor Corrêa. Por conseguinte, estas são informações essenciais, ainda que implícitas, ao sentido poético de sua biologia imaginária. Elas revelam a existência de um campo semântico suscitado pela linguagem objetiva dos trabalhos. Por conseguinte, o sentido verbal entranhado no sistema icônico-poético do artista precisa ser trazido à tona.

Imagens das espécies por ele inventadas (ícones essenciais de seus trabalhos) evocam, deliberadamente, a figura do cientista viajante e, com esta, o eurocentrismo entranhado na metodologia de classificação das espécies animais, vegetais e étnicas de todo o planeta, proposta tanto por biólogos, quanto por antropólogos europeus − dimensão que só se consuma no conhecimento da construção histórica desse poder, em que os viajantes desempenharam um papel fundamental.

SOBRE VIAJANTES, CONQUISTADORES, NATURALISTAS E A HEGEMONIA EUROPEIA
O contato permanente entre Ocidente e Oriente foi inicialmente permeado de fantasias sobre riquezas incomensuráveis, cidades misteriosas, culturas exóticas, informações cujo teor expressava a oposição entre a valorização da experiência humana por meio da aventura e o compromisso de vida ou morte com a cristandade, assumido pelos cruzados. Entre os primeiros viajantes que registraram, por meio da escrita, suas experiências e peripécias, encontra-se Marco Polo.

O que chama a atenção em seu Livro das Maravilhas é o teor fabular de uma narrativa que se quer verdadeira. Não parece haver nele nenhuma preocupação com a fidelidade documental, como a que têm os viajantes das expedições científicas, organizadas cerca de 500 anos mais tarde, em pleno Iluminismo − fidelidade que o trabalho de Walmor Corrêa parodia de um ponto de vista crítico.

Não foram essas, porém, as motivações espanholas que, cerca de 200 anos depois de Marco Polo, levaram à conquista de Tenochtitlan (capital do Império Asteca) e de Cusco (capital Inca), cujas destruições privaram o mundo das únicas experiências metropolitanas genuinamente americanas. É que a conquista das Américas não mais visava ao comércio com as comunidades locais, mas ao saque de metais preciosos pela ocupação territorial e gerencial das regiões onde eram abundantes.

O espírito que moveu Marco Polo para o contato com outras culturas, mais aventureiro e ficcional, foi derrotado pelo das grandes navegações, da expansão colonial, da catequese e, finalmente, pelas expedições científicas dos séculos XVIII e XIX. Em lugar de peregrinos, missionários, viajantes fabuladores ou conquistadores, como Hernán Cortés – que, na realidade, nunca deixaram de existir totalmente – vieram, então, viajantes cientistas e seus auxiliares (desenhistas etc). Missões e expedições científicas, organizadas a partir da Europa, propagaram-se em quase todos os rincões da Terra. Seu intuito, primeiramente científico, era de mapear as diferentes regiões naturais planetárias e classificar a diversidade de suas espécies animais, vegetais, além da pesquisa mineralógica. No entanto, a despeito das transformações das expectativas dos viajantes europeus (e já no século XX, dos viajantes norte-americanos), suas relações com outros povos e culturas tiveram por denominador comum a permanente desqualificação do outro, diferente e inferior.

SOBRE O ILUMINISMO E SUAS SOMBRAS
O Iluminismo fundamentou a ascensão econômica, política e cultural da burguesia; testemunhou o surgimento das primeiras tecnologias – decorrentes da generalização dos métodos experimentais das ciências da natureza – e a difusão progressiva de ideias seculares e liberais, cujo triunfo teve por marco simbólico a Revolução Francesa, de 1789. No caminho aberto por suas conquistas, também floresceram a modernidade e o Modernismo, emblemas do Novo Mundo, tais como a crença no progresso, definitivamente abalada pela barbárie ideológica que instrumentalizou a aplicação do conhecimento científico à tecnologia militar na Segunda Grande Guerra – marco do anticlímax dos valores burgueses assentados no Século das Luzes.

Os novos conhecimentos não só frutificaram para atender à sincera curiosidade intelectual dos naturalistas. Patrocinados por governos europeus e pelo capital associado às sociedades científicas, criadas a partir do Iluminismo, esses sistemas classificatórios não eram simplesmente sistemas cognitivos. Tampouco se restringiam ao transbordamento do campo imaginário europeu sobre terras exóticas conquistadas por processos coloniais, para o campo teórico. Eram sistemas que simultaneamente serviam para mapear em escala mundial as possibilidades produtivo–mercantis do material classificado. Ao compilarem informações sobre os recursos naturais dos lugares visitados e suas possíveis aplicações na produção, cientistas viajantes contribuíram, ainda quando involuntariamente, para a sistematização de informações vitais para a expansão e a consolidação do capitalismo.

A viagem de Charles Darwin à América do Sul, rumo à biologia moderna, na primeira metade do século XIX, exemplifica o novo espírito. Seu diário, publicado com o título The voyage of the Beagle, registra suas impressões. Nele, Darwin revela ao leitor o impacto que lhe causaram a paisagem e as espécies exóticas que encontrara no Brasil – sentimento equivalente ao de outros europeus que, no passado, haviam se aventurado pelo mundo, como Marco Polo e Bernal Diaz (soldado escritor da tropa de Cortés).

Tal encantamento, no entanto, não foi (como o de antecessores) deflagrado pela descoberta do outro − outras culturas, cidades ou portos fabulosos –, tampouco foi causado por cobiça imediata. Restringia-se ao confronto com a exuberância tropical brasileira, sendo, portanto, filtrado pela curiosidade necessária à investigação científica e à construção de modelos – como posteriormente ocorreu com a ideia da evolução natural.

O Brasil era, para Darwin, somente e nada mais que um lugar “fervilhando de vida”, com “atrações […] tão numerosas que mal se [podia] dar um passo”. Em outras passagens de seu diário, nas poucas vezes em que se referiu à vida dos brasileiros e não à sua biosfera, como no relato de sua viagem ao interior de São Paulo, ele revelou um aspecto importante do modus operandi dos discursos de ratificação da desigualdade:

Os proprietários de venda têm modos muito indelicados e desagradáveis; suas casas e suas pessoas são frequentemente imundas: a falta de garfos, facas e colheres é comum; e tenho certeza de que é impossível achar algum chalé ou choupana na Inglaterra num estado de tal carência de conforto.

Sua constatação da precariedade das condições de higiene no interior do Brasil era certamente verdadeira, mas a comparação com as choupanas da Inglaterra revelava uma relação já previamente hierarquizada, cujo denominador comum era o filtro exótico e a desqualificação do outro.

Esta tem sido, aliás, uma das principais estratégias discursivas dos conquistadores, colonizadores e viajantes em relação às diferenças sócio-culturais de comunidades, nações e continentes por eles dominados, inclusive o Brasil, já que justificam suas interferências invasivas como atos civilizatórios.

Existiam, por conseguinte, nos discursos liberais iluministas das potências europeias, pontos cegos que afloravam, por exemplo, na estarrecedora contradição entre os ideais igualitários que defendiam para seus povos e a exploração colonial planetária, promovida pelo capitalismo. Projetadas pelas Luzes, essas sombras discursivas expunham a natureza normativa e hierarquizada desses ideais e de tudo o que era feito em seu nome – colonialismo, racismo ou a substituição religiosa pela catequese.

Seu fluxo espontâneo e autoconfiante ancorava-se na suposta superioridade civilizatória daqueles que podiam falar, sobretudo porque cultuavam o Deus verdadeiro e possuíam um conhecimento (sujeito) científico que os outros não tinham (atitude persistente ainda hoje, característica de parte significativa dos cidadãos do Velho Continente em relação à África, à América Latina e à Ásia).

A BIOLOGIA IMAGINÁRIA DE WALMOR CORRÊA COMO ENFRENTAMENTO POÉTICO-POLÍTICO
Ao comentar os textos que integram o já citado projeto A Expedição Brasileira de Thomas Ender Reconsiderada (2004), Walmor Corrêa menciona uma das questões poéticas essenciais de seu trabalho:

[…] há também nesses textos outros tipos de brincadeira, como a que aparece em um dos saquinhos (com sementes das árvores catalogadas em A Expedição Brasileira de Thomas Ender Reconsiderada). “[…] Regue a planta com o suor de seu rosto, porque assim os frutos nascerão com coloração rosada…”. A ideia, mantendo uma característica marcante de minha poética, era a de brincar com o imaginário do estrangeiro acerca do Brasil.

Para o artista brincar com esse imaginário, são necessárias, no entanto, escolhas estratégicas correlatas que passam pela recriação de condições de produção similares não só às dos viajantes (caso do projeto A Expedição Brasileira de Thomas Ender Reconsiderada), como também de métodos de pesquisa, de classificação e de representação icônica da biologia científica, para produzir outra biologia, poeticamente figurada em seus trabalhos.

Seres compósitos − meio animais, meio humanos, ou editados a partir da fictícia fusão, nos desenhos, de animais de diferentes espécies, mas também materializados pela mistura e montagem de pequenos esqueletos reais de aves e de mamíferos, acoplados a mecanismos de caixa de música; de pássaros empalhados e dispostos em dioramas similares aos de museus de história natural – legitimam-se entes plausíveis, na licença e na imaginação poéticas, graças ao seu compromisso com procedimentos de “pesquisa” e de representação icônica apropriados das taxonomias dos cientistas pesquisadores viajantes.

O entrelaçamento do discurso poético da arte com o da biologia (produzido por Walmor para “brincar com o imaginário do estrangeiro acerca do Brasil”) não se fundamenta somente na reconstrução mítico-fabulosa dos repertórios metodológico-racionais do Ocidente – reconstrução produzida para desvelar pontos cegos dos poderes exercidos (ou indiretamente instrumentalizados) por esses discursos.

Em Unheimlich (2005), bem como em Sítio Arqueológico (2012), o desvelamento desses pontos cegos do “imaginário estrangeiro sobre o Brasil” é feito a partir de foco diverso daquele da maior parte de suas outras séries. Segundo Corrêa:

Na série que chamei Unheimlich, […] trabalhei com mitos populares brasileiros. Durante o tempo que passei na Amazônia, nas margens do Rio Negro, escutava com muita frequência os relatos das crenças de lendas amazônicas. […] Pesquisei e escolhi alguns espécimes formados por híbridos de diferentes animais ou de animais e humanos em um único ser que ainda povoam o nosso imaginário. Antes de partir para a tela, fiz um estudo bastante minucioso e prolongado. Através da pesquisa de diferentes fontes, foi possível produzir visualmente esses animais. […] Depois, com o auxílio dos esboços, fiz várias visitas a veterinários e biólogos especializados nos animais que formam tais hibridismos […] tomando o mito como ponto de partida. A partir daí, meu objetivo foi pintar estas espécies tão precisamente quanto seria esperado em um Atlas de Anatomia. […] Minhas fusões de animais demonstraram como a arte e a ciência podem dialogar e lançar uma nova luz sobre o mundo natural ou subverter esses paradigmas. Onde inicia um e acaba o outro?

Aqui mesclam-se dois universos irredutíveis: o universo mítico dos índios da Amazônia e aquele científico dos viajantes. São mundos culturais quase opostos, se confrontados a partir de suas dinâmicas cotidianas internas, já que o primeiro eterniza-se por meio da magia (rito) e o segundo, inversamente, transmuta-se na história, a partir da combinação de conhecimento e técnica (método). Mas as diferenças radicais entre essas modalidades de inscrição da vida humana no cosmos, se vistas do ponto de vista de sua função social, equivalem-se. Mito e tecnologia são, cada qual a seu modo, amálgamas comunitários, posto que configuram campos semânticos coletivos indispensáveis a toda e qualquer experiência humana.

A equivalência entre esses mundos heterogêneos, entretanto, foi desconsiderada por conquistadores, sacerdotes e naturalistas ao longo da expansão colonial e, posteriormente, pela dominação econômica imperialista, em que o pensamento mítico foi reduzido a um patamar cultural primitivo, explicável pela suposta inferioridade racial atribuída aos povos conquistados, pesquisados e analisados.

Tal desconsideração está na origem dos pontos cegos que informam (ou instrumentalizam indiretamente) esses discursos hierárquicos, desnudados nas pranchas de Unheimlich. Diferentemente da maioria das outras séries de Corrêa, em que a objetividade científica é submetida às suas fabulações imaginárias pessoais, esta série entrelaça ciência e mito, isto é, confronta sistemas articulados a partir da desigualdade introduzida pela expansão europeia.

Mitos amazônicos estranhamente familiares aos brasileiros do Norte, apropriados e ilustrados por Walmor, são estrategicamente alçados em Unheimlich a um estatuto científico que nunca tiveram (e que tampouco aspiraram). Outra leitura pode, no entanto, ser feita na contramão da interpretação precedente: repertórios racionalmente construídos para representar e classificar espécies do ponto de vista rigoroso das ciências biológicas, ao serem postos a serviço da visualização e da legitimação biológica de entes lendários (descritos em lendas amazônicas), decaem ao mito. Ascensão e queda simultâneas de polos antes desiguais parecem restaurar, ao menos nestas pranchas, o direito à equivalência cultural entre mundo mítico e universo racional, rompido pelo confronto permanente do europeu (e, desde o século XIX, do norte-americano) com os povos do resto do planeta, nos últimos 600 anos.

Um de seus mais recentes projetos, Sítio Arqueológico (série de 2012), abre um novo campo estratégico-investigativo. Inicialmente construída a partir de ilustrações (por meio de pinturas e desenhos) de entes inventados pela biologia imaginária de Walmor, tornou-se mais convincentemente próxima da vida por meio da assemblage de esqueletos reais e de animais empalhados pertencentes a distintas espécies.

Evolução e extinção marcam permanentemente a dinâmica da evolução da vida. A História Natural, ramo dos estudos biológicos voltados ao estudo de animais e vegetais extintos ao longo de centenas de milhões de anos, baseia-se sobretudo em evidências fossilizadas de espécies desaparecidas, desenterradas por paleontologistas.

A apresentação de Sítio Arqueológico relata com o jargão classificatório típico da biologia, detalhado numa ficha técnica, a descoberta do “esqueleto quase completo de uma sereia, espécie ainda não conhecida pela ciência”:

A descoberta foi feita em parceria com o Jardim Botânico do Rio Grande do Sul. Quando funcionários do Jardim Botânico preparavam o terreno para construir um pequeno jardim, encontraram um fragmento ósseo. Não sabendo do que se tratava, o material foi encaminhado ao especialista Walmor Corrêa, que o identificou como sendo de uma sereia. A área foi isolada e as escavações prosseguiram até encontrarem o esqueleto quase completo. Este esqueleto representa uma linhagem de mamíferos completamente adaptados à vida na água, como os golfinhos e as baleias. Seu esqueleto apresenta modificações na cauda, nas vértebras, ausência de cintura pélvica e membros inferiores em forma de nadadeiras, adaptações que favorecem a vida num ambiente aquático. Ainda resta saber como o espécime teria morrido; acredita-se que os primeiros colonizadores do Rio Grande do Sul o teriam capturado nas proximidades do lago Guaíba e, posteriormente, vieram enterrá-lo onde hoje é o Jardim Botânico.

Walmor apresenta um mapa de zoneamento das áreas de escavação organizado de acordo com os padrões arqueológicos vigentes. Inclui fotografias da área do Jardim Botânico em que o esqueleto foi encontrado, fotografias deste quando ainda estava semi-enterrado, a placa de proibição da entrada de estranhos no sítio e, finalmente, a remontagem do esqueleto desenterrado e limpo, enquadrado como os fósseis exibidos em museus.

Sítio arqueológico difere, porém, das outras séries, posto que cria o simulacro comprobatório necessário à catalogação da descoberta de espécies extintas. Construído pelo artista no mesmo âmbito imaginário de seus outros conjuntos de trabalhos, o encontro do novo espécime foi cuidadosamente produzido para tornar-se uma evidência empírica da existência passada das sereias (enterrada no solo do Jardim Botânico, portanto, fora da ficção do artista), exigida pelo saber arqueológico – indícios prévios à futura recriação da aparência física desses seres extintos por meio de imagens descritivas.

PUREZA E HIBRIDIZAÇÃO
Classes, ordens, espécies e subespécies, categorias em que os animais reais estão distribuídos e classificados pelo discurso biológico, constituem domínios permanentes, assegurados pela pureza dessas linhagens que, mesmo em lenta evolução, excluem qualquer hibridização. Esta lógica perpassa, aliás, todos os processos classificatórios produzidos pelas mais diversas áreas do conhecimento humano, tanto teórico quanto prático. A eficácia do pensamento naturalista biológico resulta da pesquisa e da codificação das classes que formam o reino animal (peixes, anfíbios, répteis, aves, mamíferos, insetos, aracnídeos e crustáceos etc) que, por sua vez, desdobram-se em ordens, famílias, gêneros, espécies e subespécies, coerentemente desdobradas.

Por conseguinte, longe de ratificar os rigorosos métodos taxonômicos naturalistas, a hibridização inerente à biologia imaginária proposta pelo artista promove, inversamente, o desmantelamento de sua lógica interna e o desmonte dos desdobramentos desse mesmo discurso na esfera político-ideológica, trazendo à tona seus inconfessáveis pontos cegos.

É importante, aqui, reiterar que a propalada neutralidade do pensamento científico dificulta a identificação do papel desse pensamento na instrumentalização dos preconceitos em curso numa determinada época (como, por exemplo, o darwinismo equivocado dos discursos raciais nazistas). Nesse sentido, racismos (sempre imbuídos da necessidade de preservação da pureza étnica daqueles grupos que os professam) encontram nessas taxonomias justificativas para suas infundadas aversões à mistura racial (hibridização).

Ao editar partes de aves, mamíferos e seres humanos, Walmor torna, pois, inócuas as reverberações dos saberes naturalistas fundados na pureza, no âmago de pontos cegos discursivos da dominação europeia.

Formado por ramificações de ramificações lógica e experimentalmente construídas da vida animal, o quadro biológico só pode ser, portanto, hibridizado à custa da perda total de seu rigor científico, de suas possíveis aplicações na economia e de seu poder de repertoriar discursos que produzem e preservam desigualdades. Na contramão dessa lógica, surgem os seres imaginados e produzidos por Walmor Corrêa. Por conseguinte, são plenamente reais no âmbito imagético, textual e poético.

Os Gabinetes de Curiosidades, em voga na Europa dos séculos XVI e XVII – salas que abrigavam coleções classificadas em Artificialia (artefatos preciosos), Naturalia (fenômenos naturais pouco conhecidos), Scientifica (aparelhos científicos), Exótica (artefatos de mundos recém descobertos) e, finalmente, Mirabilia (compilação de situações enigmáticas) –, eram concebidos, formados e exibidos a partir de critérios híbridos, integrados tanto pela curiosidade artístico-científica e pela apropriação exótica de ouras culturas, quanto por lendas e mistérios mais próximos do devaneio que do rigor metódico.

Descolada de suas referências naturalistas iniciais, a obra de Walmor Corrêa aproxima-se do sentimento enciclopédico híbrido que precedeu à sua ordenação normativa pelo enciclopedismo iluminista. Portanto, pode ser também remetida à irregularidade conceitual dos Gabinetes de Curiosidades (sobretudo às classificações Naturalia, Exótica e Mirabilia), que dois séculos antes do pensamento iluminista ainda pulsava entre mito e teoria, mistério e conhecimento, desigualdade e emancipação.

Essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. Em suas remotas páginas, consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis (k) desenhados com um finíssimo pincel de pelo de camelo.

[1] CORRÊA, Walmor. Depoimento escrito fornecido ao autor.
[2] DARWIN, Charles. The Voyage of the Beagle. New York: Collier & Son, 1909, p.37.
[3] Ibidem, p. 31.
[4] CORRÊA, Walmor. Depoimento escrito fornecido ao autor.
[5] CORRÊA, Walmor. Depoimento escrito fornecido ao autor.
[6] Texto integrante da intervenção, publicado numa placa ao lado do terreno no qual o “esqueleto da sereia” teria sido encontrado, no Jardim Botânico de Porto Alegre.
[7] BORGES, Jorge Luis. O idioma analítico de John Wilkins. In: Obras completas II (1952 – 1972). São Paulo: Globo, 2005, pp. 92-95.