Menu

Pesquisa, imaginação e mentira
Maria Amélia Bulhões
Porto Alegre

…Combinando características de diferentes animais verdadeiros em um único e novo ente, ele realiza, no plano simbólico, o desejo de criar a vida e vencer a morte, que move a humanidade desde o princípio dos tempos. Desejo esse que hoje conduz o conhecido projeto Genoma e os procedimentos de clonagem.

O artista afirma que algo muito intenso se instalou em sua mente ao descobrir que, pelos estudos da estrutura do besouro, os cientistas especialistas em vôo afirmam que ele jamais poderia voar; e, no entanto, o animal voa. Esse fenômeno impossível da natureza é, para ele, ao mesmo tempo surpreendente e apaixonante. Suas criações estabelecem a genealogia de novas espécies, em que sutis combinações evidenciam secretos desejos, angústias e frustrações
Seu fazer esconde certa crueldade. Há, por vezes, latente no animal criado, a dor de uma condição que lhe foi imposta. Um peixe que, com suas asas, sai da água, se sufoca com o ar em seus pulmões; o sapo, com asas de libélula, a “Crisálida caudal”, não poderá sustentar seu corpo ao tentar voar com suas frágeis asas. Mas a dor básica de cada um desses supostos animais pode estar fundamentalmente em sua condição de marginalidade a qualquer espécie reconhecida.

O colecionismo assume aqui uma condição de onipotência levada ao extremo. Mas Walmor Corrêa parece estar consciente dos perigos que corre ao dar asas a sua imaginação e, ao brincar de Deus, deixa ainda evidentes os riscos dessa ousadia.

Maria Amélia Bulhões é Doutora em História da Arte, curadora, crítica e professora do Programa de Pós-Graduação em artes visuais do Instituto de Artes da UFRGS.

Catálogo da Exposição Apropriações/ Coleções – Santander Cultural, Porto Alegre, 2002.