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Ficção científica

Guy Amado* Centro Universitário Maria Antonia , USP, São Paulo.

Ao primeiro contato com a obra de Walmor Corrêa a impressão é de estranhamento: suas delicadas pinturas parecem deslocadas, inadequadas mesmo ao contexto de uma exposição de arte contemporânea. Afinal, o que aproximaria a representação de exemplares do reino animal, efetuada num registro tipicamente naturalista, do convulsivo repertório visual da atualidade? Um olhar mais atento revela o diferencial peculiar que confere a essa produção autonomia em relação ao cânone cientificista: um elemento subversor de elegante inventividade, sutil e deliberadamente introduzido por Corrêa na caracterização de suas criaturas. Surge, assim, uma fauna fantástica, de perversa familiaridade em sua conformação híbrida, geralmente configurada a partir da fusão de dois ou mais bichos (mamíferos, aves, insetos) em um novo e improvável ser. Em Apêndice – Mostruário Entomológico, conjunto de obras que apresenta no Maria Antonia, o artista detém seu foco no universo da insetologia, emulando a atmosfera de um recinto de consulta científica nas dependências da instituição. Dispostas em mesas à maneira de coleções, encontram-se espécies ” inéditas” concebidas a partir da hibridização de insetos, frutos da imaginação e pesquisas obsessivas de Walmor. A fatura minuciosa e o traço preciosista, associados às informações complementares que o artista fabrica e atribui a suas criações, atestam o interesse em conferir índices de verossimilhança a estas instigantes criaturas. Certa ambigüidade advém deste procedimento, demarcando um limite sutil entre o absurdo e o `quase-possível` no universo em que habitam os espécimes de Corrêa e apontando o que vem a ser uma das virtudes de sua poética: a de uma originalidade a toda prova. * Texto para a exposição: Apêndice – Mostruário Entomológico. Centro Universitário Maria Antonia , USP, São Paulo.